“Como podemos medir a extensão de uma sonata que não foi escrita, de uma droga com poderes curativos que não foi descoberta, ou da ausência de liderança política? As crianças superdotadas são parte substancial das diferenças entre o que somos e o que poderíamos ser enquanto sociedade”
James Gallagher (1994, p.4)
Artigo como requisito de conclusão de Curso de Pós-graduação (Especialização:Supervisão em Ensino) Manuel José da Silva Júnior1
As considerações apresentadas neste texto são fruto de cinco anos dedicados à educação, ora como docente, ora como supervisor, e, nesse ínterim, da descoberta da importância do tema Educação Especial em todas as suas vertentes, através dos Seminários de aprofundamento com professores e gestores, coordenados pelo município pólo em Educação Inclusiva, Campo Grande do Piauí, nos quais participamos ora como espectador ora como palestrante.
Quando da abordagem do tema Educação Especial, tínhamos em mente apenas as pessoas com alguma deficiência, jamais como alguém apenas diferente, principalmente se esta diferença fosse algo a mais, exponencial, em relação aos outros.
Tivemos no período de 2003 à 2005, hoje reconhecido, um(01) aluno com altas habilidades / superdotado e não o percebemos em tempo. Talvez tivéssemos até mais. Felizmente, mesmo incautos, não o inibimos, mas também não o auxiliamos a ser o seu melhor, a despertar ainda mais o seu potencial. Hoje, na faculdade, nos sentimos orgulhosos e falhos.
Assim, para que outros colegas de profissão, e demais interessados no assunto, não incorram no mesmo erro, ou o ampliem, buscamos, através do debate com especialistas da área, bem como pelo estudo e pesquisa sobre o tema, e ainda da nossa própria prática, elaborar este texto com os seguintes objetivos:
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1. Especializando em supervisão escolar, pelo Instituto Educação Superior Múltiplo – IESM.
- Desmistificar várias idéias acerca do aluno com altas habilidades / superdotado;
- Fornecer ao coordenador e especificamente ao professor orientações de como reconhecer esse(a) aluno(a) em sala de aula;
- Sensibilizar o Coordenador e o professor para que propiciem a seus alunos oportunidades de desenvolvimento e auto-realização de seu potencial criativo e superior.
- Sugerir estratégias que atendam às necessidades dessas crianças;
I - O PROPÓSITO DA EDUCAÇÃO DOS INDIVÍDUOS SUPERDOTADOS
“Uma educação democrática deve levar em consideração a diversidade, ou seja, deve contemplar as diferenças individuais e oferecer experiências de aprendizagem conforme as habilidades, interesses, e potencialidades dos alunos”. (MEC, SEESP)
Segundo Joseph Renzulli o propósito da educação dos indivíduos superdotados é fornecer aos jovens oportunidades máximas de auto-realização por meio do desenvolvimento e expressão de uma ou mais áreas de desempenho onde o potencial superior esteja presente.
É preciso dar atenção diferenciada aos superdotados por ser o seu potencial superior um dos recursos naturais mais preciosos, responsável pelas contribuições mais significativas ao desenvolvimento de uma civilização.
II- PRECISAMOS SABER QUE ELES EXITEM E QUEM SÃO!
Os superdotados existem em todo lugar. Nesse momento, você pode estar com um aluno com altas habilidades em sua sala de aula, apenas não o percebeu. Segundo Extremiana (apud Pérez, 2006), o percentual depende da definição adotada. Algumas definições incluem entre 1 e 2% e outras, acima de 15 – 20% de qualquer população.
“... A Organização Mundial de Saúde (OMS) que calcula sua estimativa em função dos escores obtidos nos testes de QI define que 3,5 a 5% de qualquer população seriam de pessoas com altas habilidades”. (Pérez, 2006, p 237)
Com base nesses dados, faz-se a seguinte pergunta: onde se encontram esses alunos superdotados? Estão em todos os lugares, invisíveis, imperceptíveis, devido à inexistência ou precariedade dos serviços de identificação e atendimento oferecidos no País. Em outras palavras, não houve capacitação dos trabalhadores em educação para esse fim.
Para que não incorramos mais nesta exclusão, é necessário primeiramente que o Coordenador / Supervisor entenda o que é ou pode ser um aluno com altas habilidades / superdotação e compartilhe com seus professores e toda comunidade escolar.
O Ministério da Educação do Brasil nas Diretrizes Gerais para o Atendimento Educacional aos Alunos Portadores de Altas Habilidades/ Superdotação, adota o conceituação de Joseph Renzulli (1986, p.11-12), no seu Modelo dos Três Anéis.
“O comportamento superdotado consiste nos comportamentos que refletem uma interação entre os três grupamento básicos dos traços humanos – sendo esses grupamentos habilidades gerais e/ou específicas acima da média, elevados níveis de comprometimento com a tarefa e elevados níveis de criatividade. As crianças superdotadas e talentosas são aquelas que possuem ou são capazes de desenvolver este conjunto de traços que se aplicam a qualquer área potencialmente valiosa do desempenho humano”.
Há ainda outros conceitos:
Grupo Columbus:
É o desenvolvimento assincrônico em que habilidades cognitivas avançadas e intensidade elevada combinam-se para criar experiência e consciência que são qualitativamente diferentes da norma. Esta assincronia aumenta com a capacidade intelectual superior.
Roeper (apud Silverman, 1993):
É uma maior consciência, uma maior sensibilidade e uma maior habilidade para entender e transformar as percepções em experiências intelectuais e emocionais.
Embasados nos conceitos acima citados, ressaltamos que os portadores de altas habilidades são um grupo heterogêneo, com características diferentes e habilidades diversificadas; daí a necessidade de conhecer amplamente o assunto para se fazer uma percepção verdadeira. Angela Virgolim afirma que os superdotados:
“... diferem uns dos outros também por seus interesses, estilos de aprendizagem, níveis de motivação e de auto conceito, características de personalidade, e principalmente por suas necessidades educacionais”. (MEC – SEESP – 2005, página 145)
As características mais comumente encontradas em crianças superdotadas em idade pré-escolar: (Cline & Schwartz, 1999; Lewis & Louis, 1991: apud MEC/SEESP, 2005)
l Alto grau de curiosidade
l Aprendizagem rápida
l Excelente memória
l Atenção concentrada
l Persistência
l Independência
l Interesse por áreas e tópicos diversos
l Criatividade e Imaginação
l Iniciativa e Liderança
l Originalidade para resolver problemas
l Riqueza de expressão verbal
l Habilidade para considerar pontos de vistas de outras pessoas
l Habilidade para perceber discrepâncias entre idéias e pontos de vistas.
l Vocabulário avançado para a idade cronológica
l Capacidade de empatia
l Facilidade de interagir com crianças mais velhas ou com adultos
l Habilidade para lidar com idéias abstratas
l Interesse por livros e outras fontes de conhecimento
l Alto nível de energia
l Preferência por situações/objetos novos
l Senso de humor refinado
Segundo os pesquisadores (Davis e Rimm, 1994; Gallagher, 1994, apud Virgolim), a maioria das descrições que mencionam as características das pessoas superdotadas são àquelas mais citadas em estudos e pesquisas com esta população e, portanto, não podem ser aplicadas indiscriminadamente para toda e qualquer criança superdotada. Assim, sejam quais forem as afirmações que se possam fazer a respeito dos portadores de altas habilidades, sempre haverá alguma exceção, impedindo que generalizações sejam feitas.
III- O MITO DA SUPERDOTAÇÃO
O imaginário popular despertou sentimento de amor/ódio em relação às pessoas com altas habilidades. Segundo pesquisadores, vejamos os mitos mais comuns:
n Apresenta um caráter global;
n A família não pode ser informada de que o filho (a) é superdotado (a);
n A criança não pode saber que é superdotada;
n É um fenômeno raro;
n Implica necessariamente em alto desempenho acadêmico;
n Sempre envolve um QI excepcional;
n Superdotados constituem um grupo homogêneo em termos cognitivos, afetivos e morais;
n Altas Habilidades são uma garantia de sucesso profissional;
n É sinônimo de loucura ou, ao contrário, de elevada saúde psicológica;
n Superdotados podem ser fabricados pelos pais;
n O superdotado teria recursos suficientes para crescer sozinho.
(Winner,1998;Alencar,2000)
Pérez cita Extremiana (2000) e Alencar (1995) quando referem-se a perversidade do mito que considera que “o aluno com altas habilidades se destaca em todas as áreas de desenvolvimento humano”, como um dos empecilhos para identificação destes alunos, frequentemente chegando-se a considera-lo inclusive como possível fracasso escolar, por não atender as expectativas dos professores.
Assim, estes e outros mitos e crenças levam aos superdotados a ausência de uma identidade própria e à frustrante busca de uma normalidade que não conseguem ter. Pérez alerta:
“... porque podem causar graves dificuldades para o desenvolvimento do senso de pertinência e levar ao oculta mento ou não-aceitação de sua condição”( 2006, p 243).
IV- TIPOLOGIA
Basicamente são seis os tipos de superdotação:
Intelectual
– facilidade para o aprendizado;
– flexibilidade e fluência de pensamento;
– alto nível de abstração, rapidez de pensamento, percepção destacada;
– capacidade para resolver situações-problema, memória muito desenvolvida e compreensão acentuada de fenômenos, contextos e situações de conflito.
Acadêmico
– grande aptidão para disciplinas e conteúdos escolares;
– rapidez de aprendizagem e alto desempenho;
– motivação e interesse diferenciado por disciplina(s) acadêmica(s);
– grande produção acadêmica, grande facilidade de síntese e organização do conhecimento.
Criativa
– originalidade, imaginação e flexibilidade de pensamento;
– habilidade incomum na resolução de situações-problema, sensibilidade e facilidade de auto-expressão.
Social
– traços de sensibilidade interpessoal, capacidade de liderança, alto poder de persuasão e de influência grupal;
– atitude cooperativa, destacada sociabilidade, freqüência de ações conciliadoras e grande aceitação em diferentes grupos sociais.
–
Psicomotora
– Elevada capacidade em áreas que exigem destreza motriz, precisão, velocidade, força, movimentos organizados;
– grande controle, coordenação motora, planejamento estratégico, montagem e desmontagem de objetos, criação de novas tecnologias que facilitem ações.
Talento Especial
– proeminência na área das artes plásticas, musicais, dramáticas, literárias ou em um conjunto delas;
– elevada sensibilidade, originalidade, harmonia e expressividade que evidenciam talentos e habilidades especiais.
Já Renzulli (1986) propõe duas categorias de altas habilidades, a ACADÊMICA e a PRODUTO-CRIATIVA
A PAH ACADÊMICA é mais facilmente identificada pelos tradicionais testes de QI. O seu desenvolvimento tende a enfatizar a aprendizagem dedutiva, o treinamento estruturado no desenvolvimento dos processos de pensamento e aquisição, armazenamento e recuperação de informações.
A PAH PRODUTO-CRIATIVA coloca suas habilidades a serviço da criatividade, trabalhando nos problemas e áreas de estudo que tem relevância pessoal para ela.
Os seus interesses não são contemplados pelos currículos escolares e a tendência à dispersão, à falta de rendimento faz com que sejam rotulados de alunos dispersivos, com dificuldades de aprendizagem hiperativos, com déficit de atenção.
V- IDENTIFICADORES
Para identificar um aluno com altas habilidades / superdotação o Coordenador / Supervisor pode seguir os seguintes passos, dependendo da definição de superdotação adotada.
n Exige uma abordagem dinâmica, contextual e permanente.
n Utilização de múltiplos critérios.
n Deve levar em conta características de personalidade, aspectos sócio-econômicos e culturais.
n Observação sistemática do aluno
No Critério Multidimensional os identificadores mais adequados para a caracterização da superdotação são:
– Testes mentais: sondagem intelectual;
– Indícios comportamentais: avaliações psicológicas;
– Rendimento escolar;
– Avaliações subjetivas: uso de questionários, registro de observações realizadas por professores e o conjunto dessas aplicadas em ações combinadas.
Ainda o Coordenador / supervisor pode aplicar os seguintes procedimentos de avaliação:
n Anamnese – entrevista com os pais e com o aluno
n Uso de testes de inteligência, personalidade, psicomotricidade e criatividade
n Utilização de atividades lúdicas
n Análise final
n Devolutiva – sessão com os pais
VI- O PROCESSO DE INCLUSÃO
Dadas as suas particularidades, as crianças e adolescentes superdotados apresentam necessidades específicas a serem atendidas para que se possa maximizar suas chances de um desenvolvimento saudável e feliz. Lázaro (1981) aponta para diversas dessas necessidades, como se pode ver a seguir:
- Evitar tanto a negação da superlotação quanto a exibição dos dotes do superdotado;
- Não exigir desempenho excessivo de um superdotado, nem subestimar sua capacidade;
- Não ver o superdotado como um obstáculo à auto-imagem, evitando comportamentos inadequados de disputa;
- Desenvolver, tanto quanto possível, a capacidade de estimular adequadamente o superdotado, não confundindo, entretanto, orientação com competição;
- Fazer com que o superdotado se sinta aceito pelo mundo exterior, evitando que se subestime ou se veja como pessoa não talentosa;
- Permitir, em família, que o superdotado encontre seu espaço, sem dele exigir excesso de desempenho como forma de agradar os pais.
VII - CONSIDERAÇÕES PEDAGÓGICAS
As concepções pedagógicas de acordo com Maker (1982) salienta cinco aspectos pedagógicos fundamentais para a educação do superdotado; aspectos estes que, sem dúvida, favorecem a motivação, o interesse e a aprendizagem livres de tensão:
– A aprendizagem deve estar centrada no aluno e não no professor;
– Deve ser encorajada a independência, e não a dependência;
– Deve ser encorajada uma atmosfera de "abertura mental" em sala de aula;
– Deve ser enfatizada a aceitação de idéias e não o seu julgamento;
– Deve ser permitida e encorajada a alta mobilidade do aluno dentro da sala.
As Modalidades Instrucionais citadas abaixo estão sendo utilizadas atualmente para trabalhar o aluno superdotado e pode congregar as atividades práticas recomendadas por Lázaro. Não serão aqui desenvolvidas por requerem um espaço maior de apresentação e questionamentos.
n Aceleração
n Segregação
n Enriquecimento
n Compactação do currículo
Recomendações Práticas sobre como lidar com Crianças e Adolescentes Superdotados, segundo Lázaro (1978)
1. Responder-lhe com paciência e bom humor as perguntas, aproveitando as suas expressões de interesse para direcioná-lo para novas aprendizagens e explorações;
2. Valorizar-lhe a individualidade, permitindo que ele seja ele mesmo, ao invés de forçá-lo a ser aquilo que os pais gostariam que fosse;
3. Demonstrar-lhe aprovação pelas suas realizações e desempenho, mas continuar também a demonstrar-lhe aceitação quando não for bem-sucedido, ou quando fracassar em alguma tarefa;
4. Encorajar-lhe não apenas o desenvolvimento intelectual, mas também o desenvolvimento de habilidades físicas e sociais, que favorecem alguns aspectos de seu desenvolvimento. Este período em que está participando de jogos seria também favorável à fermentação de idéias (a "incubação" citada por Wallas);
5. Dar-lhe oportunidade para tomada de decisões e escolhas entre alternativas. Tais oportunidades favorecem a sua independência e autoconfiança;
6. Dedicar-lhe algum tempo, ouvindo com atenção o que ele tem a dizer e discutindo as suas idéias;
7. Encorajar-lhe uma variedade de atividades, oferecendo-lhe bons materiais de leitura, facilitando-lhe o desenvolvimento de hobbies, levando-lhe, sempre que possível, para visitas a museus e exposições, ampliando-lhe os interesses;
8. Prover-lhe com bons modelos adultos, que estejam próximos a ele, que o valorizem como pessoa e que o encorajem a testar novas idéias, transmitindo-lhe confiança em sua capacidade e habilidade;
9. Encorajá-lo a permanecer e se dedicar a alguns hobbies ou atividades, desestimulando o comportamento de "pular" continuadamente de uma atividade para outra.
Conhecer, portanto, as características individuais dos alunos superdotados e as diferentes formas de manifestação de suas singularidades é condição para que se estabeleça o vínculo necessário entre o ensino e a aprendizagem. É tarefa do Coordenador / supervisor estabelecer esse diagnóstico.
O trabalho do supervisor deve ser um instrumento para a flexibilização do currículo em todas as séries, visando contemplar à diversidade. Deve planejar conjuntamente com o professor e devem pautar pelo estímulo das inteligências individuais, por meio da criatividade. Somente assim, a ação do coordenador poderá permitir e determinar de fato o atendimento aos alunos portadores de altas habilidades /superdotação.
BIBLIOGRAFIA
Saberes e práticas da inclusão: altas habilidades / superdotação. Coordenação Geral - Francisca Roseneide Furtado do Monte, Idê Borges dos Santos – reimpressão – Brasília: MEC, SEESP, 2005. Educação infantil, mod. 9.
STOBÄUS, Claus Dieter e MOSQUERA, Juan José mouriño. Educação Especial: em direção à educação inclusiva. 3 ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2006.
ENSAIOS PEDAGÓGICOS – construindo escolas inclusivas: Brasília: MEC, SEESP, 2005.
Ensaios pedagógicos / superlotação. Programa de educação inclusiva: Direito a Diversidade. Coordenação– reimpressão – Brasília: MEC, SEESP, 2007.



quinta-feira, novembro 25, 2010
Curso Vencer - preparando vencedores
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